Na infância e adolescência tive dois grande ídolos, dois grandes heróis que me forneciam valores para a vida além daqueles que recebia da minha família: Ayrton Senna e Rocky Balboa. A geração de hoje pouco se lembra de cada um deles, mas os valores que eles me transmitiram estão comigo no dia-a-dia ainda hoje. Senna a despeito dos sete títulos de Michael Schumacher ainda é para mim o maior piloto de todos os tempos, assim como para a maioria dos que amam o automobilismo. Já Rocky... o que falar de Rocky?Falar de Rocky não é falar apenas do pugilista fictício, mas também do ator que o criou e assim construiu o próprio sucesso. Rocky "é" Sylvester Stallone e acompanhou o ator por toda a sua carreira. Foi com Rocky que Stallone conseguiu o estrelato e um oscar no fim dos anos 70 e entrou para o hall dos grandes nomes de Hollywood. Foi com Rocky II e Rocky III que Sly viu o auge da sua fama no início dos anos 80. Foi com Rocky IV que ele sentiu o peso do marketing da indústria, que transformou o drama do seu personagem em um mero instrumento de propaganda política dos EUA contra a URSS (extinta União Soviética). E foi com Rocky V que o ator iniciou sua descida despenhadeiro abaixo pela abismo do esquecimento. Para os que amam a série como eu, pensar que a franquia Rocky havia sido fechada com o catastrófico Rocky V chegava a magoar. Não era justo nem com o personagem, nem com o ator. Há pouco mais de um ano quando soube das intenções de Sly de filmar Rocky Balboa (ou Rocky VI, como preferirem), ao contrário da maioria não o critiquei e nem o ridicularizei. Pois bem, pela primeira vez em mais de 10 anos vejo o nome de Stallone novament eem um grande filme, e mais uma vez é Rocky.
O filme é honestíssimo. Para os nostálgicos como eu os primeiros minutos são muito emocionantes. O velho Paulie continua o mesmo e sabe-se lá por quê Rocky insiste em ter paciência com ele. Rocky tem um bem sucedido restaurante que parece ser até demais para o caráter do pesonagem tão desapegado as coisas materiais. Rocky visita a antiga pista de patinação onde conheceu Adrian, o antigo local de treinos, ruínas das memórias de uma vida que o tempo fez passar. Sinceramente, você nunca viveu nada assim? Se não, viverá. Eu mesmo costumo visitar locais que marcaram meu passado e só não vou confessar chorar aqui para me dar o direito de alguma privacidade.
O filme não é apelativo. Não há um super oponente com um soco capaz de derrubar um T-Rex, nem um moicano negro cheio de correntes no pescoço cuspindo enquanto fala na cara de Rocky. Há apenas o drama interno de um homem que tem dentro de si a alma de um lutador, a ânsia pela vitória e pela superação. É um filme sobre um homem simples tentando ser ele mesmo. Enfim, até daria para descartar o quarto e quinto filmes da série e transformar Rocky I, Rocky II e Rocky Balboa em uma trilogia brilhante. Mas tenhamos paciência, afinal Rocky IV não foi ruim, apenas fugiu ao espírito da série.
A luta continua perfeita. Sim, muito mentirosa! Homem nenhum aguenta dois socos seguidos daqueles sem cair, mas Stallone continua fazendo a mais empolgante e bem feita luta de boxe da história do cinema. Ninguém jamais chegou e talvez jamais chegará perto dele nesse quesito. Desafio você a não estalar os dedos, balançar as pernas ou roer as unhas vendo a luta.
O final é digno de Rocky Balboa. No último filme assim como no primeiro, Rocky perde a batalha mas ganha moralmente. O campeão Mason Dixon não é um anti-herói, apenas um lutador em um tempo sem grandes oponentes. Ele chega a ser respeitoso com Rocky e no final de uma grande luta reconhece o valor do velho ex-campeão. Quando o último sino toca o que se vê são dois gigantes trocando socos freneticamente. Um filme que redime e lava a honra do herói criado por Sylvester Stallone e talvez a dele própria.
Após ver Rocky Balboa só posso garantir uma coisa... esperarei pelo fim das filmagens de Rambo IV.

